Tempo de saborear morangos

Data da publicação: 02/09/2010
Chegou a época certa do ano para comprar morango, diretamente das chácaras que circundam Brazlândia, a 45 quilômetros de Brasília, especializada no cultivo da fruta. De 60% a 70% da produção anual no Distrito Federal, que é de 4,8 mil toneladas, concentra-se em agosto e setembro. Trata-se de um período de baixa umidade, dias quentes e noites frias, condições ideais para que cresçam morangos saudáveis. Com o aumento da produtividade, a oferta cresce e os preços caem de 12% a 75%. Justamente em razão da alta safra, já começou a Festa do Morango na cidade produtora, evento tradicional destinado à exposição e vendas do produto in natura e de receitas à base dele, com premiação para agricultores que apresentam os melhores frutos. A feira(1) começou na sexta-feira última e vai até o próximo domingo. Em períodos de colheita em baixa, o quilo do morango custa de R$ 8 a R$ 16 no DF. Durante a safra, cai para preços que variam de R$ 4 a R$ 5. Supermercados e varejões, que em geral comercializam bandejinhas de 300 gramas por R$ 1,99, reduzem o valor para R$ 1,75 e até R$ 1,25. Em locais onde é possível adquirir a fruta direto dos produtores, como a Centrais de Abastecimento do DF (Ceasa) e a Feira do Produtor, em Ceilândia, é possível achar a mesma bandeja por R$ 1 ou até por R$ 0,99. Não é somente nesses lugares que os consumidores podem encontrar morangos de boa qualidade a preço de custo. O morango do DF é considerado de alta qualidade. As primeiras mudas da fruta foram plantadas aqui na década de 1970, trazidas por descendentes de japoneses do interior de São Paulo. Eles abandonaram o mercado saturado do Sudeste a fim de abrir uma outra fronteira agrícola na capital federal. A zona rural de Brazlândia foi o local onde se fixaram por tratar-se de uma das regiões mais altas do DF. ?Graças à altitude, mesmo nos meses mais quentes do ano, as noites da cidade são frias. Morangos precisam tanto de temperaturas baixas quanto do calor do sol, que os ajudam a amadurecer. Os produtores acabaram encontrando as condições ideais?, diz Blaiton Carvalho da Silva, gerente da unidade da Emater em Brazlândia. Silva informa que, graças a essas condições, os produtores locais atingiram um bom índice de produtividade em pequenas áreas de plantio ? a área cultivada em todo o Distrito Federal é de 120 hectares, e os 130 agricultores ocupam propriedades que não ultrapassam cinco hectares. ?O DF produz uma média de 40 toneladas por hectare na alta safra. Nos demais estados produtores, vemos uma média de 36 a 40 toneladas por hectares. Não ficamos nada a dever?, afirma. Nova técnica De acordo com Blaiton da Silva, a adoção da técnica de montar um túnel de lona sobre as mudas no período chuvoso, introduzida no DF há aproximadamente cinco anos, permitiu o cultivo inclusive nessa época, embora o volume colhido seja significativamente menor do que na seca. ?A prática já existia no Sul do país, em São Paulo e no sul de Minas. Como essas são regiões que enfrentam condições de tempo mais rigorosas, incluindo geada, acabamos nos saindo até melhor do que alguns desses estados. Por isso, hoje nossa produtividade emparelha com a deles e até a ultrapassa?, declara. Atualmente, o DF importa morangos de estados produtores do Sudeste (veja quadro), mas a Emater frisa que isso ocorre em razão das exportações para Tocantins, Goiás e sul da Bahia. Essas áreas não têm produção própria de morango, e adquirem de 15% a 20% do volume colhido no DF a cada ano. Parte da demanda local tem que vir de fora. ?A preferência de Goiás e do Nordeste é comprar morango aqui. As distâncias rodoviárias são menores em relação ao Sudeste e a perda é menor?, destaca Blaiton de Carvalho Silva. Ele acrescenta que, como a fruta produzida em Brazlândia é mais fresca do que a comprada pelo DF no Sudeste, o quilo do produto local fica de R$ 0,50 a R$ 1 mais caro. O produtor rural Eduardo Piffer, 34 anos, viu quando criança, ao lado do pai, a região em torno de Brazlândia ser desbravada. Em 1985, quando ele chegou com a família de Atibaia (SP) para produzir morangos na capital federal, existiam somente de 30 a 40 agricultores trabalhando com a fruta. ?Viemos porque um amigo do meu pai, da colônia japonesa, disse que a região tinha potencial, Hoje aumentou o plantio e a concorrência, mas o consumo também cresceu, porque a população do DF está bem maior?, pondera. Piffer deve expor suas frutas na Festa do Morango, onde já foi premiado. Como muitos produtores de Brazlândia, Eduardo Piffer alterna a cultura do morango com outras para evitar o desgaste do solo. ?Esse é um problema que nós temos, porque as propriedades são pequenas e mesmo assim é necessário fazer a alternância. Nos meses de chuva, deixo um espaço para o morango coberto com lona e invisto no plantio de goiaba?, conta. 1 - Cardápio Na Festa do Morango é possível encontrar desde tortas até pratos salgados e uma inusitada cocada de morango. Os plantadores das melhores frutas da safra de 2010 também serão premiados, com selo de qualidade e insumos agrícolas. Ainda estão programados shows musicais. O evento está acontecendo na sede da Associação Rural e Cultural Alexandre de Gusmão (Arcag), no Incra 08, Brazlândia. A exposição, realizada pela Arcag e pela Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), ligada à Secretaria de Agricultura do DF, tem entrada franca e aguarda 150 mil visitantes nesta edição, que é a 15ª.

Fonte: Correio Braziliense